Black Alien em versão exclusiva

Onze anos se passaram entre o primeiro disco do Black Alien, "Babylon by Gus – Vol. 1: O Ano do Macaco", e seu último lançamento "Babylon By Gus - Vol. II: No Príncipio Era o Verbo". "Fiquei um pouco em off nesses 11 anos e agora estou tentando buscar tudo de volta", ele nos contou durante um papo entre as gravações deste Stripped Sessions.

A gente sabe o que rolou e o rapper nunca escondeu. A dependência química e o alcoolismo fizeram o Gustavo de Almeida Ribeiro, aka Mr. Niterói, se afastar dos palcos e da arte. Há pouco mais de um ano sóbrio, ele retornou ao estúdio com algumas letras que compôs durante o período de reabilitação. "No primeiro mês de internação já saiu a letra de 'Somos o Mundo' e no segundo mês saiu a letra de 'Terra'. A gente gravou lá dentro, eu tinha permissão".

Esta sessão em vídeo é a primeira do artista em muito tempo. Gravamos no Red Bull Station, no centro de São Paulo, duas músicas do novo trabalho: "Rolo Compressor" e "Identidade" que podem ser vistas nos vídeos abaixo. No nosso papo, falamos sobre o disco novo, mas também sobre o período mais difícil da dependência. Sobre compor estando sóbrio e sobre a nova fase e o seu novo mantra pessoal - Eu vou ficar bem. "O universo ouve tudo e absorve".

Gustavo, porque você escolheu essas duas músicas para essa sessão especial?

"Identidade" e "Rolo Compressor". São duas músicas bem diferentes entre si. Pra falar a verdade, eu escolhi porque dei uma pesquisada no que a galera mais gostou do disco novo. Cada um tem as suas preferidas, eu tenho as minhas e "Rolo Compressor" é uma delas. : "Identidade" também, são todas minhas filhas. Quando perguntei pra amigos e conhecidos sobre quais músicas eles mais gostaram, surgiram essas duas. Então resolvi escolher essas pra gravar aqui, pra fazer o que a galera gostou mais.

Como foi ver esse filho nascendo depois de tanto tempo? Foram 11 anos desde seu primeiro e histórico álbum solo.

Depois do primeiro álbum, eu mergulhei na turnê e mergulhei em outras coisas também. Fiquei um pouco em off esses 11 anos e agora estou tentando buscar tudo de volta. Fiz muito pouca coisa. Fiz algumas coisas pro teatro infantil, fiz uma música pra novela, fiz uma música pra um filme. Fiz algumas colaborações, com o Shawlin, por exemplo. Fiz uma letra pro Frejat. Mas isso é muito pouco pra onze anos. E agora estou nova etapa da minha vida, eu parei de beber. Fez um ano há duas semanas [nosso encontro aconteceu no final de outubro]. Desde os 14 anos eu não fico um ano sem beber. Está sendo uma fase de descobertas e redescobertas. Então, o disco demorou pra ser feito, escrito e gravado um ano e pouco.

Mais ou menos o mesmo tempo em que você parou de beber.

Sim, mais ou menos esse período. A minha recuperação da dependência química é intimamente ligada ao processo de criação do disco, porque assim que terminou a arrecadação do Catarse, dezesseis dias depois eu tava me tratando. E depois desses dezesseis dias, quando eu entrei num tratamento de regime fechado numa clínica, no primeiro mês já saiu a letra de "Somos o Mundo" e no segundo mês saiu a letra de "Terra". A gente gravou lá dentro, eu tinha permissão. E depois eu saí foi um outro processo. Porque o processo de estar limpo na rua é diferente. Porque na clínica você tem os muros, tem toda aquela proteção e na rua, não. Então, isso foi um outro duelo, tive que batalhar contra tudo que tem em volta e seguir limpo.

E contra você também, né?

Sim, contra mim também, contra as minhas vontades. Como eu disse, meu maior inimigo sou eu, mas meu melhor amigo também. Então, eu tentei ser meu melhor amigo e tenho conseguido. O mais difícil foi compor sem estar usando nada. Eu tive que entrar numa de falar comigo mesmo: "Gustavo, a sua poesia vem do Gustavo. Ela não vem de nada externo, ela é interna e não depende de nada externo para se mostrar". Fui por esse caminho e graças a deus deu certo.

Nessa faixa "Terra" você reforça bastante a frase "Eu vou ficar bem".

Sim, é tipo um mantra. Eu puxei um mantra pra mim, ficava repetindo isso. Pensei que se eu to repetindo isso pra mim, eu posso colocar numa música, num refrão, numa melodia bonita e virar um mantra não só pra mim, mas pra quem gosta do meu trabalho e tá passando pelo mesmo problema. Mas não necessariamente, qualquer outro motivo que você queira fazer um mantra, repetir algumas palavras pro universo, ele ouve tudo que você fala. Ouve e absorve. Então, se você ficar falando "Vou ficar bem, vou ficar bem", é isso que você vai receber do universo, eu acredito. 

Eu achei o álbum muito pra cima, tem uma pegada blueseira, umas baladas. Isso reflete esse momento também?

Eu vi que a vida que eu levei, me dei mal. Fui em lugares que eu não pertencia, andei com gente ruim. Andei em lugares tenebrosos, nas sombras, vivi momentos bem ruins. E eu percebi que posso falar deles sem ter que voltar a eles e sem ter que transmitir aquela sensação ruim, aquele peso, aquela energia ruim pras pessoas. Pra que eu vou viver aquilo tudo de novo? Não, vou mudar a mensagem. Vou transformar aquilo em amor, em esperança, em felicidade, em alegria. Então eu vou cantar alegria, já que estou tendo vários momentos bons com a recuperação. Eu to rindo, dando gargalhada sem beber. Acho que se eu viesse com uma mensagem pesada, não ia ajudar tanto. Uma mensagem positiva seria a melhor forma de atingir mais corações possíveis.

Me fale um pouco sobre a capa do disco. É uma referência ao filme "O Sétimo Selo", onde o personagem joga xadrez com a morte. Você se viu assim?

Sim. Porque, no caso, eu tive que jogar xadrez comigo mesmo. Eu tava causando a minha própria morte, literalmente. Eu tive que duelar comigo mesmo e virar esse jogar. A ideia do Ingmar Bergman, a ideia da capa, é mais antiga que o disco. Eu conversei sobre isso a cinco anos atrás. Teve o assassinato do Speedy [o rapper Cláudio Márcio, um dos seus primeiros parceiros musicais] e eu não tava com cabeça boa pra fazer um disco e não tive mesmo. Só tive cabeça pra fazer agora e foi mais ou menos agora que eu to aceitando um pouco mais a morte dele, pra ser sincero. Eu resolvi virar o jogo, jogar xadrez comigo mesmo e dar um xeque na morte que eu mesmo tava me causando. Dei um xeque em mim mesmo, na parte que tava me prejudicando.

E como você planeja seguir daqui pra frente?

Olha, depois dessa gravação deu até uma vontade de ensaiar. Eu não gostava, nunca ensaiei na vida, nem com o Planet Hemp, nem com o Speedy. Mas agora eu to vendo a vida de outra maneira, o ensaio é importante porque a gente tem que fazer jus, é o meu filho. Tenho que transmitir aquilo que foi gravado da melhor forma possível, de coração, sem erro. Essa sessão de hoje me deu uma esperança nova, um gás diferente, fiquei muito feliz!